Embora cada educador tenha uma história de vida única, se parar para recordar seu tempo de criança, exatamente nos momentos em que fazia o dever de casa, certamente o desenho do cenário seria parecido para todos nós, professores. Sentados em algum cômodo da casa, fazíamos a tarefa enquanto a mãe terminava alguma atividade que beneficiaria toda a família.
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Sim, é uma visão um tanto quanto poética. Sabemos que não era tão simples assim. Alguns de nós apresentavam aquela velha preguiça ou certamente havia um irmão que fazia uso de inúmeras artimanhas para tentar escapar do dever de casa.
Ainda assim, o contexto em que vivíamos favorecia para que o momento da tarefa fosse menos dramático do que é hoje! As famílias eram maiores: sempre havia algum irmão que pudesse ajudar. Na maior parte dos lares, as mães estavam ali, presentes – física e mentalmente. As distrações estavam da porta para fora. Entrou, fechou a porta e lá estava um ambiente propício para a concentração nas atividades escolares.
Em relação aos pais, diante dos desafios da educação de tantas crianças, não sobrava nem muito tempo, tampouco energia, para ir diariamente na escola cobrar da coordenação que não ocupasse tanto o tempo daquela criança. Além disso, o pressuposto do uso de tempo das crianças era mesmo entre escola, tarefa e brincadeiras com os vizinhos.
Questões como não saber como tirar o filho do vídeo game ou da tv, falta de tempo em uma agenda lotada de compromissos diários em cursos extra curriculares ou atendimento nas clínicas especializadas em distúrbios de aprendizagem, pouco tempo dos pais para ajudar na tarefa entre outras, não faziam parte da vida de uma família comum.
Por outro lado, dentro da sala de aula, a correção da tarefa era somente uma das atividades que compunham o plano de aula. Diante do pressuposto de que trazer a tarefa pronta era responsabilidade do aluno e da família, a correção era simples, ainda que pudesse tomar mais ou menos tempo de acordo com o conteúdo.
Em relação ao cenário quase bucólico que acabamos de encontrar lá no fundo de nossas memórias, temos a má notícia: passou e não vai voltar! Mas há também a boa notícia: passou, não voltará a ser da mesma forma, mas há inúmeros novos recursos que podem nos ajudar!
Sim, apesar de toda mudança, a tarefa continua a ser de fundamental importância para o aprendizado. Talvez seja até mais importante hoje em dia, já que há um número imenso de distrações brigando a todo instante pela atenção de nossos alunos e influenciando assim no aprendizado.
Hoje, é possível registrar e analisar os efeitos da tarefa no cérebro de um aluno, confirmando que os maiores pensadores da educação, apesar de pouquíssimos recursos tecnológicos estavam certíssimos: o dever de casa é essencial para bons resultados na aprendizagem de qualquer conteúdo.
Resultados de pesquisas sérias, desenvolvidas em universidades de renome, mostram que um novo conteúdo fica registrado no cérebro como um rascunho. Pouco tempo depois, caso não seja acessado ou utilizado, este conteúdo é eliminado, como se fosse lixo sendo descartado. Como o cérebro decide o que pode descartar e o que deve ser armazenado na memória de longo prazo? Toda vez que aquele conteúdo é acessado ou utilizado novamente, vai sendo reforçado até ser armazenado como aprendizado.
Eis aí, cientificamente comprovada a importância da tarefa: mesmo que o aluno tenha compreendido plenamente a explicação do professor, sem retomar o assunto, ele ficará registrado como um rascunho que será apagado a qualquer momento.
Para aqueles alunos que ainda não entenderam totalmente a matéria, a hora da tarefa funciona como um momento de tomada de consciência de que ainda é preciso colocar muito foco e esforço ali e também uma oportunidade a mais de reforçar aquele rascunho, para que seja mantido no “almoxarifado” do cérebro.
O momento da correção será um desafio cada vez maior, considerando o nível extremamente alto de atividades a que nossos alunos estão cada vez mais expostos – dentro e fora da escola. Diante da vasta gama de opções e novidades que a tecnologia oferece, rever o mesmo conteúdo pela terceira vez (primeiro na aula quando foi apresentado, depois na tarefa, agora na correção) passa a ser entediante e a atenção cai a nível próximo de zero!
A maneira de amenizar a sensação do “de novo!” ou “que chato!” é colocar os próprios alunos para fazer o trabalho da correção e, sempre que possível, envolver movimento, interação, colaboração e desafio. Deixe que seus alunos comparem suas respostas, procurem a diferença, busquem entre os próprios colegas respostas para dúvidas que trouxeram, enquanto você coordena e gerencia o momento de correção da tarefa.
E a tecnologia, você deve estar se perguntando, ajuda? Sim, tanto quanto a lousa, o caderno, o livro, o pátio. É um recurso, mas nunca A solução. Se for utilizada como mais uma opção, pode ajudar. Mas acredite: seus alunos não saberão como usá-la em prol da aprendizagem sem sua ajuda.
Uma sugestão é ter alguns poucos equipamentos acessíveis no momento da correção da tarefa e garantir que o uso seja compartilhado, com tempo limitado, para que os outros recursos sejam também utilizados.
Quanto aos responsáveis, especialmente aqueles que imaginam estar ajudando seus filhos ao pedirem que levem menos dever para casa, eles também precisam de auxílio. Entender o papel que a tarefa tem no aprendizado ajudará para que eles se tornem aliados da escola nessa missão desafiadora, porém gratificante, que escolhemos como profissão!
O papel da tarefa no aprendizado

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