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Por que as crianças não estão cantando?

há 3 dias
5 min de leitura

Esse foi o título de um artigo escrito por um filósofo, escritor e pesquisador da educação, depois de sua visita ao Brasil, no início dos anos 2000. David Thornburg, um ser humano incrível, a quem tive a honra de conhecer pessoalmente, ficou estarrecido ao visitar escolas, durante sua estadia em nosso país, e descobrir que, ao contrário da imagem que ele tinha em sua mente, de um Brasil alegre e colorido, as escolas eram cinza, com muros altos e aparência triste. Dentre os livros e artigos escritos por ele, esse foi o que mais ficou marcado.


Lembro que entendi seu susto. E fiquei admirada com o esforço que ele colocou na tentativa de compreender como tamanha divergência podia existir, entre a cultura de um povo que canta, dança, sorri, tem casas e lojas coloridas e a escola que prepara suas crianças para o futuro, sendo cinza, silenciosa e “séria demais”, segundo ele mesmo me disse.


Mais de vinte anos, alguns governos com crenças e propostas diferentes e uma pandemia depois, esse artigo continua vivo dentro de mim. Agora, porém, com reflexões que eu não teria recursos para processar quando conheci o autor.


A dúvida que não sai da minha mente é: o que o Dr. Thornburg escreveria se voltasse hoje a visitar uma escola no Brasil? E como não quero pensar sozinha, convido você a pensar junto comigo: que reflexões ele faria se a visita acontecesse em uma escola da sua rede?


Enquanto aguardo ansiosa por uma oportunidade de ler, ou quem sabe, ouvir sua resposta, querido leitor e leitora, vou propor uma mudança de foco em relação à dissonância entre a cultura do nosso país e o clima dentro da escola.


Se eu fosse fazer uma versão atualizada do mesmo artigo, minha pergunta seria: por que os professores não estão sorrindo? Ou, talvez, por que os gestores estão adoecendo?


Tenho uma sensação de que a resposta a essas perguntas resolveriam o mistério do porquê as crianças não estão aprendendo. Ou do porquê os profissionais da educação estão desistindo de suas carreiras, as quais são, na maior parte das vezes, escolhidas a partir de um propósito de vida. E talvez tenhamos aqui uma pista:

Quando você não consegue mais relacionar seu trabalho, por mais pesado e cansativo que seja, com um propósito de vida, você também perde a força e energia necessárias para continuar, não apesar dos obstáculos, mas exatamente porque perdeu o prazer que antes existia em buscar caminhos para vencer os desafios.

Uma pesquisa realizada após a pandemia pela especialista em liderança educacional Doris Santoro sobre o que tem gerado os frequentes pedidos de afastamento por questões de saúde, o desânimo, e o abandono de carreira por parte dos profissionais da educação trouxe um resultado surpreendente. Segundo ela, ao levar para a escola propostas que ajudem o professor a relaxar e buscar um estilo de vida diferente, para que possam se livrar de um possível burnout, estamos focando nos sintomas, como se eles fossem a “doença”.


O esgotamento físico e emocional dos profissionais da educação é uma realidade. Muitos estão mesmo vivendo um processo de burnout. Este, contudo, nada mais é do que consequência do real problema que precisamos enfrentar: os professores não estão simplesmente cansados. O sentimento que de fato representa a realidade do que eles vêm vivenciando tem outro nome: desmoralização.


Sim, os profissionais da educação estão desmoralizados.



Segundo o dicionário, uma pessoa “desmoralizada” é aquela que perdeu o respeito, o ânimo, a força moral, a confiança em si ou na possibilidade do êxito. O sentimento de desmoralização é o resultado de diversos processos, acontecimentos, políticas, interações e propostas que não podem se modificar ou apresentar melhora a partir de mais oportunidades de relaxamento, meditação, atividade física ou alimentação diferente dos profissionais da educação.


Santoro coloca a desmoralização como “um processo, não um evento”. Uma pessoa não tem como, sozinha, reverter esse processo. E essa realidade torna cada um de nós, família, escola, gestores da educação, políticos e sociedade como parte importante para que essa realidade possa ser revertida.


As pesquisas revelaram que os profissionais da educação estão em estado de total desespero, diante das demandas que chegam todos os dias, de todos os setores da sociedade, sem que exista a devida estrutura para atender ao menos aquelas que de fato cabem à escola. O tsunami de acusações, matérias, reportagens, ameaças, desrespeito, violência verbal e física que toma conta do dia a dia em redes de ensino por todo nosso país deixa como resultado um reforço na sensação de desmoralização que assola os profissionais a quem deveríamos reverenciar.


Se tem saída? A resposta é sim. Não só porque precisamos reverter esse quadro e proporcionar aos profissionais da educação uma sinalização de que há uma luz no fim do túnel, mas também porque temos um compromisso com toda uma geração de crianças e adolescentes cujo direito à educação de qualidade depende dos mesmos professores e gestores que, apesar de tantos desafios, não desistiram do cumprimento de seu papel.


O primeiro passo para a remoralização é o retorno às nossas origens, enquanto seres humanos


Precisamos de relacionamentos sociais nos quais possamos nos sentir pertencentes e seguros. Em especial no pós-pandemia, quando trabalhar para eliminar as lacunas de aprendizagem e dar o apoio emocional para os estudantes e suas famílias se tornaram as prioridades. Tudo certo em buscarmos esses objetivos, desde que não tivéssemos deixado passar as dores, perdas, desafios, medos, traumas e sobrecarga física e emocional que assolaram aqueles com quem contamos para dar conta de um desafio tão grande: os professores e gestores.


Precisamos retomar práticas que são alicerces na vida de um educador: alguns momentos para um café com bolo. As conversas sobre os filhos, pais, amores e desamores que tornam a sala dos professores um ambiente mais humanizado. Os encontros pedagógicos nos quais há sempre um tempo para compartilhar um “causo” engraçado, ou triste. O abraço acolhedor em um período de dor. A sensação de ser importante simplesmente por existir dentro de um espaço em que reinam a pressa, os sustos, as divergências de expectativa e, em especial, nos quais as famílias confiam seu bem mais precioso.

Se a desmoralização vem de fatores externos à escola, a remoralização só é possível quando dentro da escola há o reconhecimento, o respeito, a construção conjunta de regras e limites que são colocados a todos aqueles que buscam ali a educação de qualidade com que sonham para nossas crianças e adolescentes.

Não há a mínima dúvida quando penso na resposta que daria hoje à pergunta do Dr. David Thornburg sobre o porquê as crianças não estão cantando, ou a pergunta que todos os dias a sociedade traz sobre o porquê as crianças não estão aprendendo: simplesmente porque os profissionais da educação não estão mais conseguindo sorrir!


Acreditamos que devolver aos profissionais da educação a alegria e o orgulho de ensinar também passa por oferecer condições para que possam exercer seu trabalho com segurança, conhecimento e a satisfação de acompanhar a aprendizagem de seus alunos. É com esse compromisso que o Instituto Alfa e Beto atua há mais de duas décadas, apoiando redes de ensino e educadores por meio de iniciativas fundamentadas em evidências científicas. Convidamos você a conhecer o trabalho do Instituto e suas contribuições para uma educação pública em que professores possam ensinar cada vez melhor e crianças tenham cada vez mais oportunidades de aprender.

 
 
 

1 comentário


Diana
Diana
há 2 dias

Gostaria de obter a fonte para a produção deste artigo. Grata.

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